terça-feira, 25 de abril de 2017

Manuel Freire - "Pedro Soldado" poema de Manuel Alegre

" E tudo o vento levou"





Abril chegou
e pariu luz,
a verdade estendeu-se
e andou de boca em boca,
de sorriso em sorriso
de brilho em brilho,
tempo de  abundância
ouro, canela , marfim,
jeito de não ter fim!
Liberdade solta como uma louca
e foi bom!
sem laços forçados, sem agrafos, sem parafusos
ou outras ataduras
e os becos levantaram, as ruas esticaram
os edifícios alongaram
as cidades prosperaram e cresceram…
Paulatinamente, assim, num tom baixo, lento
vieram de longe sopros estranhos,
arrotos traiçoeiros. 
Vinham a compasso de ameaça…
Um ruído de abelhas assassinas
lançou tédio, confusão, pobreza, falta de pão
estragaram o conceito, profanaram a certeza
a luz a meio gás, tudo atirado por terra,
impiedosamente ,
Abril desfeito num golpe perfeito
E o vil metal a rir-se de nós … 

PN 25 de Abril de 2017




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Fénix purificada



O tempo que demorámos frente a frente…

um tempo só nosso!

Anos e anos a fio;

pacientemente, a puxar nós

na mais completa escuridão.

Um imbróglio sufocado em lixo tóxico,

a garganta apertada, urze áspera

Tinhas tanto para me ensinar

e eu tanto a escutar,

a minha concentração;

um tecido esponjoso

a absorver ; cada sílaba,  cada gesto

cada silêncio,cada sorriso

cada riso,cada provocação.

Ganhei asas; experimentei voos rasos e outros altos

Espantei os torpes, os deselegantes

Espantei os ambiciosos, os altivos

Espantei os covardes, os maliciosos

Espantei os intriguistas, os inimigos

Despertei iras, cobiças e ciúmes

Rasguei-me nos espinhos, piquei-me na sarça

E nesta tortura desencantada

masquei travo, vomitei azedume

Sangrei por dentro, chorei fundo e num frio leito me deitei

Baixei aos invernos e busquei salvação; tua chegada,

a mão estendida, carinhosamente compreensiva

Uma dádiva dos céus;…

ora navegando na vaga alterosa,

ora submergindo na profundidade da dor

a estrebuchar aflita e a querer respirar

E neste penoso agitar-se, contra galés invencíveis

com cordas a apertar, a sufocar as abdominais…

soltei-me das amarras!

Depois, depois falhaste, manobraste o destino da barca;

primeiro chegaram os atrasos, raramente prontidão…

Vinha sempre colada nos teus lábios sorridentes uma nota de arrependimento,

 trazias sempre uma desculpa engendrada

pronta a enfiar,

e eu mesmo a explodir, fingia que em mim não crescia uma fúria colossal

Não me quiseste dar a independência, teria de permanecer cega, de olhos

postos em ti, só em ti… Tinhas a ilusão que estaríamos uma para a outra até ao fim dos nossos dias…

Deusa, dona e senhora do meu destino, tu sabias tudo;

Panaceia dos iluminados,

queimámos etapas, ora podia ser, ora não podia ser.

farta do jogo de ilusionismo, manipulada até ao tutano,

depois de muito conjecturar, mudei de rumo.

Agora vou navegar sem ti,

não  sozinha, vou errar, vou acertar,

levo comigo tudo o que de ti aprendi!

PN 




Feliz Páscoa a todos os que me visitam! 










sábado, 18 de março de 2017

Coisa de “Moscas”



O asfalto inclina. A Mosca Anã reduz o andamento. Mais à frente; um largo conspurcado de latas vazias, de papéis surrados, plásticos adiposos. Puxa o freio, a máquina derrapa.Apeia-se.Aguarda-a a rainha Vareja; a do verniz estilhaçado. A Anã, antecipa apressadamente o abraço, o cumprimento não desmancha a imperturbável majestade, vaidosa imperatriz do lixo costurado, solta um grunhido displicente, o rosto incha de tão pérfida maldade. A mosquinha indignada, escancara as narinas, em tom esganiçado:” Sou sempre a má da fita, a embusteira, logo eu que me esmero tanto”. Sua alteza, torna-se sombria e desfia metálica: “Aborto mal parido, cigarro apagado, dente furado, não tomas a palavra sem antes consultar a minha!” Faúlhas de raiva a coser por dentro, o dedo em riste:”Sai daqui indigente, este lugar é meu, por sufrágio universal direto! Excomungada, coisa tirana, busca outra morada.” A Anã, em pranto se desfaz: “Não acredito que me estás a expulsar! sempre te defendi! assim pago pelo mal que não fiz!? São as outras, não vês que são as outras, que te colocam contra mim?!”.”Chega de carpir, sai daqui!”- ordena sua alteza. A mosquinha dirige-se ao carro, a Vareja fixa-a inquieta, desconfiada. Mal se ajeita no assento do volvo, liga a ignição, já distante, ri-se baixinho, gargalha e até uiva; por fim, raivosa: “Velhaca! Um dia lixo-te!”A Vareja cogita:“Vai para o diabo, o meu trono nunca o ganharás!”  
( Recriação de um poema já editado)

PN 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Alinhavo sobre o joelho

Festival = Festa de amigos para amigos.
Participantes = Algumas vozes sonantes e estreantes = Canções sem qualidade.
Vozes grandiosas de jovens mas em poemas imperceptíveis ?
Posturas em palco = Alguns sem postura?
Houve quem se esquecesse onde se encontrava … devia imaginar-se em casa. A voz salvou-se mas o poema não! Sem a utilização de uma maquilhagem, vestindo escuro… com um aspecto demasiado pesado… sem brilho, sem cor… ?
Apostei no Pedro Gonçalves! Para mim, o único, postura e voz mas canção em inglês = Erro? = Pode ser, de qualquer forma o “jogo” é fora e às vezes somos forçados a jogar com as mesmas “armas” para se ser aceite. Não é o que tem sucedido em relação à economia? Fazemos o que para nós é correcto? Continuamos na fasquia do lixo!
As regras da festa estão viciadas e não se pense que é só no exterior que começa o boicote. Dentro há vícios, os amigos, compadrios, manias … Uma concorrência desleal!
As linhas telefónicas abertas? Será? Desconfio!
Vence = Canção de embalar = Má postura em palco para o que se espera num Festival Eurovisão da canção = outro poeminha adolescente.
Assim, nunca chegaremos lá! 
PN
  



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chamamento

…na pressa…pressa….os pés têm pressa…
os sapatos…os sapatos pesados e  gangrenados
puxam o passo para o fundo, fundo, fundo….
a lama viscosa trava a passada,
o sujo resvala
os pés rolam , rolam… nos sapatos apertados de solas batidas
ai os sapatos andrajosos  atiram o esqueleto à cama
e o combalido sono serve-me um chá morno,
uma chávena abocanhada e encardida
antes mesmo dos delírios nocturnos
Quando a tampa do quarto se abre…
lá por cima, volteiam pássaros sem norte… pássaros que sondam o  mistério da morte
Meus olhos doridos e pedrados de insónia
bocejam copiosos na demora,
estafados de bater na mesma tecla; em surdina, em som esbracejado,
em  gritos brandos, em brados coléricos…,
sofrida retina, estala em fissuras crispadas de pesar
sonolência tardia… o repouso que não chega
a paz desejada… remota, sempre afastada…
Os pássaros descem, percorrem o quadro, esboçam linhas curvas
voos rasos à minha volta…
Masco a poalha amarga das visões trágicas… cenas sem remédio, irremediavelmente perdidas,
outras; luzes, de grande porte, desmedidamente cintilantes;
o doce a derreter-se na saliva … uma pequena luz bruxuleante dentro da boca…
É hora… e os pássaros… os pássaros levam o meu espírito com eles…,
eles sabem, sabem onde depositar, no lugar que perpetuamente sonhei.

(Reedição)
  
PN
  




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Tem pertinência

"Que autoridade moral tem a Europa para criticar Trump, se tem os refugiados amontoados e espalhados em tendas, a sofrerem com a falta de tudo, a morrerem de frio e não sabemos se de fome, a suicidarem-se desesperados, a darem à luz nas condições mais desumanas, e se não fossem os voluntários, que pouco melhor vivem do que eles, (mas se querem viver num apartamento, sem nada, com uns colchõezitos no chão, onde dormem, tem de o pagar) não imaginamos como seria. Eles, estes nossos irmãos, são pessoas, porque se fossem animais, já alguém se teria levantado, para reclamar os seus direitos! Porque razão não são assistidos pelo menos com os bens essênciais, e com pessoal capacitado e pago pela UE? Há campos de refugiados, onde tudo é desenrascado, pela caridade de Pessoas com letra maiúscula que, estes sim, não levantam muros, mas constroem pontes, levando amor, carinho e serviço. Quando a água congela nos canos e estes rebentam, são os voluntários quem socorrem. Quando a energia se vai abaixo com a sobre carga, são os voluntários que concertam, etc. É a caridade humana que está a desenrascar aquilo que a UE devia fazer com os fundos europeus existentes para isso. Tanto se luta para se fazer justiça a umas coisas, e está certo, mas porque outras tão importantes tão depressa são esquecidas? Porquê que as televisões não vão fazer uma reportagem a sério para mostrar à UE e ao mundo como eles vivem?"

Encontrei por aí...